6/12/2006

Versão do realizador

Chegou a casa e encontrou a mulher com outro. O outro sou eu, pensava, enquanto o casal experimentava a nova placa de granito escuro e sardento da casa de banho recentemente remodelada. O casal mental ia percorrendo todas as divisões do apartamento, num frenezim nupcial exacerbado, gemendo e insultando-se. Gostas de foder com outros, sua puta? Gritava o macho num galope esforçado que cheirava a SG Gigante e a cerveja morna. Cala-te e puxa-me os cabelos! Amanhã podemos falar de moralismos quando eu for tomar o pequeno almoço ao café da tua mulher. Ela arfava e ansiosa pensava no orgasmo que queria ter mas iria ser concerteza interrompido pela fraca ejaculação do cavalo cansado que a montava. O marido, pasmado, filmava a situação no seu telefone de última geração sem que as bestas percebessem a presença do mirone. Quando deu por isso, o cornudo tinha quase 10 minutos de sexo amador na memória do telemóvel, que piscava enjoado com o que tinha visto. Fechou a porta à saída e ainda conseguiu ouvir o berro gutural do barrigudo que se vinha estoicamente depois de um último assalto à vagina desiludida da mulher, de gatas, que já só pensava no banho que ia tomar e nos comprimidos que a iam fazer esquecer mais esta batalha perdida em busca de uma satisfação vingadora. O outro que era marido, já no elevador, chorava de alegria. Descobrira, de forma pouco ortodoxa, a sua vocação. Filmar o sexo dos outros. Não dos outros que não ele, mas dos outros que têm outros com quem não querem estar. Dos outros que sorriem para outros e comem as suas mulheres e maridos em jogos pervertidos de mentira e solidão. Dos outros que fazem dos legítimos outros. Cacos, espalhados, esmurrados por uma violenta pancada de cinismo na calmaria de relação podre. Mas estável. Vendeu a sua quota na empresa de tintas, investiu num computador e criou um site. Onde se vêm corpos nus de gente frustrada e prevertida que não devia estar ali. Mas está. Hoje é casado. E feliz. Com a ex-mulher de outro.