Amor cão
Ontem perdi a vergonha. E logo à frente de uma mulher que me achava responsável. Eu achava-a linda de viver. Para quê morrer e perder toda aquela beleza?
Flashback.
Pensei que tinha perdido a compostura, mas um olhar mais atento fez-me reparar que ainda a tinha. Da vergonha é que nem sinal. Procurei nos bolsos, no chão, no balcão do bar. Nada. A mulher fixava-me com um olhar de condenação. Como se eu tivesse acabado de perder o seu filho num jardim, à tarde, depois de um passeio. E desculpa para tal acto? Aleguei distracção, mas os jurados riram-se na minha cara. De repente o que começou como um comentário ingénuo transformou-se num hediondo crime com contornos sórdidos daqueles que se adaptam em filmes de êxito com actores famosos e eu que pensava ser um mero figurante estava com as câmaras todas apontadas para mim sem saber o que dizer. Parece que perdi as vírgulas. E a fala.
Flashforward.
Hoje já é amanhã. Com uma defesa brilhante consegui provar que a dita vergonha tinha sido perdida involuntaria, ingénua e sem o uso da mente. Discorri brilhantemente. Sobre o amor, o álcool, a verdade e o futuro. A plateia chorou. Aplaudiu. E rendeu-se à trivialidade dos meus argumentos, regados com uma dose extra de um molho gourmet feito à base de ingredientes exóticos que só são usados por quem conhece a fundo a culinária das aflições.
Consegui que um nunca mais te quero ver se transformasse num hoje não dormimos juntos.
A vergonha apareceu uns dias depois. Como um cão que volta ao dono passado uns dias, cheio de fome.

1 Comments:
Muito bom este texto.
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