4/16/2006

Chez Argent

Os índices de esquizofrenia do indivíduo estavam tão altos que começou a pedir mesa para dois quando ia jantar sozinho. Chegou mesmo a oferecer flores a um lugar vazio, num finíssimo restaurante cuja especialidade era servir mal por, pelo menos, 50 euros por pessoa. Os pratos tinham nomes que lembravam intelectuais franceses em decadência. O sabor fazia justiça à descrição nominal. Imaginem um canibal ter de se alimentar exclusivamente de velhos com fatos a cheirar a bolas de naftalina. O cozinheiro devia ter frequentado Belas Artes. Mas sem sucesso. O empratamento era um insulto às regras básicas do design alimentar. Mais valia assumir a falta de talento e servir as refeições em tachos, como eu gosto. Mas não era eu no restaurante. O indivíduo olhava para a frente, ternurento, e pensava na primeira abordagem à sua visão-companhia. Escolho eu o vinho? Foi o que lhe saiu. Ninguém ouviu, mas ele ainda hoje jura que as palavras "Surpreende-me" foram proferidas. Escolheu um monocasta, para orgulhoso mostrar que sabia o que era um varietal. Cabernet Sauvignon. Dá-se bem em quase todos os solos e é suave. Espero que gostes. O indivíduo gostou. Tanto que bebeu pelos dois. Pagou por três. E saiu de quatro.