4/06/2006

Surpresa

Num jornal de referência para todos os que o achavam indispensável, apareceu uma nova rúbrica. O Consultório Sem Tino Mental. Ninguém queria acreditar! Nem mesmo os que não liam o jornal e nem sonhavam com o que lá se escrevia. Sonhavam com outras coisas. E com outras pessoas. Ou com as pessoas que aparecem no jornal de referência, mas sem o ter como referência. Pormenores...
Neste consultório, faziam-se perguntas. Sem pré-conceitos. Nem pós-modéstias. Perguntar por perguntar. Já que não se paga...
Sempre me disseram para não abusar das reticências.
O jornalista que respondia às perguntas da nova rúbrica andava feliz da vida. A moda pegou e havia imensa gente a questionar o jornal de referência. Mas um dia, uma pergunta que estava na caixa de correio virtual (entregue por um carteiro digital), deixou o jornalista incomodado. Se a montanha veio a Maomé, falou com ele? Duvidava um anónimo, mas respeitável leitor na casa dos trinta, profissional liberal e solteiro por opção. Sabe-se lá de quem... (outra vez!)
Fiquei zonzo! E pelos vistos o senhor que respondia também. Tanto que se meteu num avião com destino a uma montanha. Alta, para ter mais credibilidade. Não sei se foi o nome Maomé e os recentes confrontos ou a vontade de ir para um lugar elevado que o moveram. Assim que achou um ermo a mais de quatro mil metros de altura, achou que estava já num sítio indicado para falar. Com quem ou quê não sabia, mas tinha de o fazer. Gritou desconfiado. Olá! Xiu! Susto... (foram propositadas) Xiu, porquê? Não vês que as montanhas estão a dormir? Era uma voz cavernosa. Podes acordá-las. As montanhas dormem? E podem acordar?
Se não acordassem, como podia eu falar contigo?
Na semana seguinte, o jornalista respondão pediu a demissão do jornal de referência e abriu uma loja de turismo de aventura.